Acontece nesta sexta-feira (19) um novo leilão de terras que fazem parte da massa falida das Fazendas Boi Gordo. Entre as pessoas lesadas pela fraude ouvidas pelo G1, a expectativa é que a espera por ressarcimento chegue ao fim após 15 anos. O caso das Fazendas Boi Gordo ficou conhecido no Brasil como um dos maiores episódios de falência envolvendo pirâmides financeiras.

A aposentada Marta de Lourdes Moraes, de 62 anos, espera ser ressarcida após perder o dinheiro da venda de sua casa para investir na Boi Gordo. O prejuízo, à época, foi R$ 37 mil.

“Na época, fazia muita propaganda no rádio. Eu confiei e entrei nesse barco furado.

Vendi minha casa, que minha tia tinha me deixado. Era a única coisa que eu tinha”, lamenta Marta.

O plano era comprar um imóvel maior após o resgate do dinheiro, que nunca aconteceu.O analista de sistemas Anderson José da Silva também relembra o prejuízo que teve com o investimento furado.

No ano de 2000, após perder o emprego, ele utilizou uma parte da indenização da empresa em que trabalhava para quitar dívidas. O restante, R$ 17 mil, investiu todo na Boi Gordo.

“Eu fui iludido. Teve gente que investiu antes de mim e recebeu, propaganda no rádio e na TV, artistas.

Então, eu acreditei”, lembra ele. “Fiquei sem nada na época.

”DificuldadesMarta, que mora com uma das filhas, em São Paulo, e faz salgados em casa para vender, conta que o dinheiro perdido tem feito muita falta. “Eu caí na rua e quebrei o pulso, já fiz duas cirurgias.

Tenho que colocar a prótese, mas como eu vou trabalhar? Se esse dinheiro [do ressarcimento] entrar, já ajuda um pouco”, relata. “Apesar de que não vai ser ressarcido aquilo mesmo, não vai entrar o dinheiro da casa.

O dinheiro da casa que eu vendi nunca mais vou recuperar.”Anderson também conta que o dinheiro perdido tem feito falta.

“Eu tive situações bem difíceis, de ficar devendo para banco. Tinha dinheiro para receber, mas acabei devendo na praça.

Se o Boi Gordo me pagasse, eu conseguiria resolver o problema e ainda me sobrava. Me atrapalhou realmente, desestabilizou legal.

”Agora, a expectativa das pessoas lesadas é que o leilão de parte da massa falida resulte em ressarcimento. “Estou na expectativa de receber esse dinheiro corrigido.

Tem bastante gente, não fui só eu que caí. Minha maior indignação é o tempo, a Justiça demora demais.

Já são muitos anos.”O leilãoParte da massa falida da Fazenda Boi Gordo é leiloada nesta semana.

Terras ficam no estado de Mato Grosso. (Foto: Reprodução / Lut Leilões)
O juiz Marcelo Sacramone, responsável pelo caso, diz que “os valores obtidos serão utilizados para o pagamento dos credores”.

A expectativa é que a ação gere pelo menos R$ 500 milhões para o ressarcimento dos credores e pagamentos de tributos. “Passados 12 anos, os investidores têm agora a perspectiva real de serem ao menos parcialmente satisfeitos”, afirma.

Estão sendo leiloadas terras das fazendas Realeza do Guaporé I e II, localizadas em Comodoro (MT). São terras remanescentes do processo de falência e correspondem a 135 mil hectares, uma área equivalente a extensão urbana da cidade de São Paulo, segundo informações da Lut Leilões.

O leilão teve início na terça-feira (16) pela internet.
“A área submetida a leilão era uma das mais valiosas da Boi Gordo e utilizada à época para angariar clientes diante de sua dimensão e por contar com pistas de pouso, área de plantio, pastos”, descreve Sacramone.

Se até o final do leilão desta sexta toda a área não tiver sido arrematada, haverá novo leilão com deságio (diferença entre o valor de mercado e seu valor como garantia) de 30% no valor total da terra. Se mesmo assim restarem terras não arrematadas, será feita uma rodada presencial no dia 13 de setembro, com a venda loteada da terra com deságio de até 40%.

“Vamos conseguir ressarcir, ao menos em parte, as mais de 30 mil pessoas vítimas dessa pirâmide financeira”, diz Eronides Santos, promotor de Justiça de Falência que acompanha o caso desde 2007. Do total de investidores lesados, 70% eram pequenos investidores que aplicaram até R$ 25 mil no negócio.

Relembre a fraudeEm 1996, a Fazenda Reunidas Boi Gordo iniciou um processo de investimentos em animais. Pela proposta, investidores receberiam após 18 meses o lucro da venda do boi engordado, com promessas de 42% de rendimento via certificados de investimentos, como aponta a Lut Leilões.

A empresa, no entanto, pagava contratos vencidos com recursos de novos investidores, em esquema configurado como pirâmide financeira. Em 2001, a empresa pediu concordata, e faliu em 2004.

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Fonte: G1