Para Kate Sokoloff, estrategista de marca em Portland, Oregon, o espelho oferecido pelo Facebook para sua separação do namorado com quem estava há três anos foi como “um golpe baixo emocional”, ela disse. “Nem 15 minutos depois que desmanchamos, quatro anos atrás, provavelmente ainda com o carro estacionado diante da minha casa, ele mudou seu status para ‘solteiro'”.

Isso significou que todos os amigos do casal no Facebook, entre os quais os filhos adolescentes de Sokoloff, foram notificados instantaneamente.

“Não houve como me esconder, como chorar sozinha”, disse Sokoloff, 55.

Ela enviou mensagens a amigos, pedindo que removessem de seus álbuns no Facebook fotos que a mostrassem em companhia do antigo parceiro, mas se lembra de ter desejado que existisse “um aspirador de Facebook que pudesse sugar todos os traços de nosso relacionamento que restavam na Internet.

Especialmente as fotos. Mas a verdade é que fotos que eu nem sabia existir apareceram ainda ontem”.

Desde novembro do ano passado, essa ferramenta existe, como parte de um kit que a rede social projetou para administrar e ordenar o arquivo digital que cresce com cada relacionamento. É como limpar os armários, disse Kelly Winters, gerente de produto e parte do que o Facebook designa “equipe de compaixão”, um grupo mutável de gerentes de produtos, designers, engenheiros, pesquisadores, cientistas sociais e psicólogos.

“Você não deseja guardar coisa alguma que não seja causa de alegria”, ela disse, ecoando o lema de Marie Kondo, japonesa que se tornou guru de uma vida menos atulhada de objetos.

“Equipe de compaixão”; da esq.

para a dir., Kelly Winters, Gregory Wells, Emily Albert e Dan Muriello

Três milhões de usuários já recorreram a algum aspecto do fluxograma de separação, como a ferramenta é conhecida, optando por minimizar aquilo que veem sobre um ex, no futuro, e, da mesma forma, por esconder seus posts – decisões que podem ser facilmente revertidas caso o futuro traga uma mudança de ideia ou a atenuação de uma dor.

Já desfazer o trabalho do aspirador de pó (para usar o termo que Sokoloff escolheu para o feito de engenharia que emprega poder da chamada computação distribuída a fim de remover tags de centenas ou mesmo milhares de imagens que já não causam alegria) é mais laborioso.

Não é novidade que a rede social, cujo movimentado ambiente abriga mais de 1,5 bilhão de pessoas, é um espaço complexo e ocasionalmente desorientador.

Navegar por ela, acompanhar suas regras e atalhos em constante mutação requer as nuanças e talentos de uma heroína de Jane Austen e o couro grosso de um político.

(Aliás, vale dizer que as aspirantes a Austen que desejem registrar esse comportamento poeticamente merecem nossa compaixão.

A despeito da complexidade demonstrável da mídia social, há pobreza narrativa em frases do tipo “e aí deixei de seguir meu amante em todas as plataformas”.)

A equipe da compaixão tem por missão tornar as interações no Facebook mais humanas e mais humanitárias.

Winters e seus colegas desenvolveram ferramentas para ajudar na resolução social, a resistir a bullying, enfrentar agressão (ou percepções de agressão) online e distúrbios de alimentação, e responder a questões específicas de estudantes de segundo grau, trabalhando em colaboração com o Centro de Ciência para o Bem Comum da Universidade da Califórnia em Berkeley, o Centro de Inteligência Emocional da Universidade Yale e outros parceiros acadêmicos.

Novos projetos auxiliarão na identificação de ideias suicidas nos posts de um amigo, e oferecerão ajuda na conexão a recursos de prevenção do suicídio.

Há uma equipe do Facebook trabalhando agora para determinar de que maneira perfis do Facebook poderão ser administrados depois que uma pessoa morre. Outro grupo criou controles de segurança para que amigos e parentes possam se comunicar rapidamente em caso de desastre.

Certa tarde de calor em fevereiro, o sol reluzia nas bicicletas azul claro que os funcionários do Facebook usam para se deslocar pelo grande complexo de edifícios da empresa em Menlo Park, Califórnia, e eles pareciam universitários saudáveis em um panfleto de propaganda.

Mais de 6.

000 pessoas trabalham naquele complexo, se deslocando entre a “aldeia” de Novo Urbanismo que no passado servia de sede à Sun Microsystems (adquirida pelo Facebook em 2011) e a nave mãe de quase 40 mil metros quadrados projetada por Frank Gehry do outro lado da Bayfront Expressway.

Dentro do espaço concebido por Gehry, balões plásticos brilhantes em formato de números flutuam gentilmente por sobre as mesas, marcando o “Faceversário” de cada membro da equipe (o aniversário de sua data de contratação).

Máquinas de venda eletrônica oferecem teclados e carregadores, em lugar de chocolates. Cartazes com letras rosa proclamam “seja nerd” e outros lemas inspiradores.

Winters, o psicólogo clínico Gregory Wells, o engenheiro Dan Muriello e a designer de produto Emily Albert me receberam em uma sala de reunião chamada “Outlook Sem Sincronia” para explicar como o fluxograma da separação surgiu.

A entusiástica Albert, 25, dançarina clássica antes de se matricular na Escola de Design de Rhode Island, descreveu suas dificuldades para lidar com o legado de um antigo namorado da época de faculdade.

“Eu ficava vendo um post após o outro”, ela disse, “experimentando aquilo que tantas amigas sentem, a quase impossibilidade de separação quando você se mantém conectado digitalmente. Em uma decisão catártica, eu me apanhei pensando que o Facebook talvez devesse tentar enfrentar a questão”.

No ônibus da empresa, viajando de volta para sua casa em San Francisco, certa noite, ela mencionou uma ideia que tinha concebido para ajudar a minimizar esse tipo de arrasto. Como conseguir separação digital sem recorrer à “opção nuclear” de bloquear uma pessoa ou removê-la da lista de amigos? Os demais passageiros receberam a ideia com aprovação estrondosa, ela disse.

“Ter o coração partido é uma enfermidade muito comum aqui”, afirma Albert.

Corações partidos e o Facebook têm muito em comum.

Existem estudos que examinaram a relação entre estilos de apego e a tendência de vigilância digital, depois de uma separação no Facebook. Existem estudos que demonstram correlação entre essa vigilância digital –o que as pessoas chamam de “stalkear alguém no Facebook”– e o fenômeno conhecido como intrusão relacional obsessiva, ou a busca de intimidade com alguém que não a deseja.

Alguns estudos encontraram possíveis vínculos entre o uso do Facebook e maior incidência de infidelidade em um relacionamento, o que conduz a ainda outros estudos que demonstram que o Facebook pode ser um fator de previsão de divórcio.

Existem estudos que provam que o Facebook entristece as pessoas, e estudos que demonstram o exato oposto.

Alguns pesquisadores asseveram que o uso do Facebook cria vício neurológico ao estimular um feedback loop de dopamina – um pico de opiáceas naturais quando uma pessoa recebe uma atualização de status ou visita a página de um amigo. Existem até estudos que sugerem uma correlação entre postar o status de relacionamento no Facebook e o estado de saúde desse relacionamento.

Uma separação tem estágios de agressividade, disse Morgan Smith, 18, caloura na Universidade Northwestern.

“Se você bloquear o seu ex em todas as plataformas, isso é como o nível 10 da escala”, ela disse.

“Se eu bloquear meu ex no Facebook, isso revela energia negativa demais, de minha parte. Eu prefiro manter uma abertura cortês para o futuro.

Não quero saber o que a pessoa faz da vida dela a cada dia” – como acontece no Snapchat, por exemplo -, “mas se ela foi aceita para um programa de estudo no exterior, ou foi eleita para a presidência de sua classe, eu gostaria de congratulá-la. O Facebook funciona mais como um documento em longo prazo de sua vida”.

Matthew Kopfler, 37, chefe de cozinha em Nova Orleans, sofreu mais com sua separação no Facebook, ainda que tenha tido a consideração de remover todas as tags de fotos que mostravam sua ex junto com ele, e que tenha deixado de segui-la em todas as plataformas de Internet, não só no Facebook. Mas ele esqueceu de remover a página da empresa dela (a ex é dona de uma loja de vinhos, o que tornava a presença do casal na rede social uma mistura de prazer e trabalho) de seu timeline no Facebook.

Isso queria dizer que “um post com traços de agressão passiva chegava ao meu feed, e causava ansiedade em qualquer que fosse a circunstância. Só o tempo cura, mas o Facebook esfrega as coisas na sua cara, às vezes.

Da mesma forma, meu cachorro morreu dois meses atrás, e o Facebook continua me convidando a postar fotos dele toda semana”.

Para Madeline Kaufman, 20, estudante de jornalismo na Northwestern, a separação no Facebook foi como um jogo digital de ver quem piscaria primeiro.

Foram precisos quatro meses para que ela registrasse no Facebook que havia desmanchado com o namorado.

“Ele manteve o status dele como ‘envolvido em um relacionamento’ por mais dois meses”, ela disse.

‘Era como um jeito esquisito de deixar as coisas para trás, que foi estranhamente difícil de aceitar para mim. Mas acredito que quanto a isso eu tenha vencido, porque mudei meu status primeiro”.

Michael Rich, diretor do Centro de Mídia e Saúde da Criança no Hospital Infantil de Boston, e professor associado de Pediatria na Escola de Medicina de Harvard, vem estudando os efeitos da mídia social sobre os jovens adultos desde o nascimento das tecnologias que tornaram possíveis as redes sociais.

Na semana passada, no fórum online Ask the Mediatrician, que ele opera, Rich recebeu uma pergunta típica, vinda de uma jovem que não conseguia deixar de perseguir virtualmente o seu ex no Facebook, ainda que ela não recebesse mais suas atualizações, uma forma de comportamento que ela disse ser agravada pelo fato de que todas as suas amigas faziam a mesma coisa.

“Vemos alguém que jamais pensaria em perseguir um ex-parceiro na vida real fazendo exatamente isso com facilidade, online”, disse Rich. “Estamos vendo muitos comportamentos que existem desde que o mundo é mundo” – ciúmes, em resumo – “funcionando de maneira muito diferente na mídia social”.

Algumas formas de comportamento são reforçadas enquanto outras são atenuadas.

Alguns anos atrás, o grupo de Rich, em parceria com a Comissão de Saúde Pública de Boston, organizou um seminário para adolescentes que desenvolveu o slogan “Face it, don’t Facebook it” [faça as coisas cara a cara, não no Facebook].

Rich disse que “o ponto é honrar a qualidade do relacionamento quando este era bom, ao encarar o parceiro e dizer ‘olha, não está funcionando mais'”. A campanha “também propunha que as pessoas investissem mais suas emoções no processo, em lugar de apenas mudarem de status online.

Preocupa-me que todas essas ferramentas, apesar das boas intenções, criem uma maneira mais socialmente aceitável de não encarar as coisas. Essas ferramentas mudam e evoluem com tanta rapidez que precisamos continuar nos reeducando a cada vez que elas mudam”.

Encontrar o tom correto foi parte importante do trabalho de design, disse Albert. A linguagem empregada tinha papel crucial para criar um kit que pudesse se comunicar com uma menina de 14 anos que está desmanchando com o namorado depois de quatro semanas e igualmente bem com casais casados há muito tempo, e suas famílias.

O tom precisava ser neutro, não podia assumir familiaridade excessiva e tinha de evitar qualquer sinal de incitação. “Se cabe aos designers cuidar de surpresas e agrados”, ela disse, “o que os aspectos penosos da vida querem dizer em termos de design?”

A linguagem do Facebook não é poesia lírica, de forma alguma, mas resolve o problema.

Se você por acaso encontrar o fluxograma da separação (o que por enquanto não é tarefa fácil: ele só está disponível para aparelhos móveis, e nos Estados Unidos), você descobrirá, como Winters descreve, uma caixinha de opções.

“Dar um tempo.

Eis algumas mudanças que podem ser úteis: não notificaremos Taylor de qualquer mudança que você faça. Ver menos Taylor.

Ver Taylor no Facebook apenas se você visitar o perfil dele”, e assim por diante. A linguagem usada é em geral a de um manual de instruções.

“Ligue a aprovação de tags para posts e fotos nos quais você está identificado” – mas ao final, o texto ingressa no território da autoajuda; “Procure o apoio de pessoas em quem confia. Mantenha-se ativo”.

Sokoloff, a estrategista de marca que desejava um aspirador de pó digital, questionou se fazer com que todos os traços de um relacionamento desapareçam não envolve algum custo emocional. “Não existe algo de importante no processo de cura que seria perdido se pudermos ter no Facebook o equivalente aos removedores de sonhos de ‘Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’?”

Em seu mais recente livro, “Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age”, Sherry Turkle trata, em suas palavras, de “como a tecnologia nos ajuda a esquecer aquilo que sabemos sobre a vida”.

Turkle, diretora da Iniciativa de Tecnologia e Self do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e veterana observadora de como as pessoas interagem com suas máquinas, recorda uma apresentação “dos primeiros dias da Internet das Coisas”, ela conta, “sobre como poderíamos usar uma nova maneira de animar os nossos mundos”.

Era um app para smartphones que mostrava um caminho para, digamos, um determinado café evitando encontros acidentais com ex-amantes que pudessem estar passando por perto, ou, aliás, com qualquer pessoa que o usuário desejasse evitar.

Dessa maneira, conta Turkle, o usuário poderia tomar o seu café sem passar por qualquer fricção.

O conceito de fricção zero ainda a incomoda.

“Talvez você deva mesmo passar um ano sofrendo antes de seguir adiante”, ela disse, embora admita as vantagens das ferramentas de separação do Facebook. “Eu fico pensando sobre pessoas que liam compulsivamente suas velhas cartas de amor e diários, olhavam para seus álbuns de casamento e de fotos, e escreviam poemas, contos, romances”.

Faziam arte, em resumo, depois de absorver o sumo do passado.

“Não quer dizer que o Facebook não deveria facilitar o uso de um botão que evite certas lembranças dolorosas”, ela disse.

“Mas o motivo para que olhemos aquelas velhas cartas de amor é que estamos tentando resolver as questões de nosso passado. Creio que simplesmente devamos reconhecer a humanidade do processo e tratar a nós mesmos com compaixão.

A vida é e deve ser complicada”.

.

Fonte: Folha de S. Paulo