Com a polarização da discussão política acirrada pela crise atual, as hashtags #isentao #isentona, que sinalizam os autodenominados apartidários, ganha força nas redes sociais, e aproxima quem quer evitar discussões mais acaloradas.

Uma busca rápida no Twitter e no Facebook revela que o uso da hashtag se popularizou a partir de março, e algumas pessoas trocaram o nome no Twitter para incluir o termo.

É o caso de Manoel Alves Neto, que atualmente se autointitula @IsentaoUnderwood, em uma referência ao personagem Frank Underwood, interpretado por Kevin Spacey na série House of Cards .

“Só o Brasil daria três temporadas da série”, disse.

“Eu mudei meu nome (nas redes sociais) na semana passada e desde então as pessoas pararam de me incomodar tanto.

Não gosto dessa classificação de “coxinha”, “petralha” ou “alienado”. Não temos uma terceira via, só lado A e B.

Isso é muito chato. A discussão não chega a lugar nenhum”, afirmou.

Apesar de relatar incômodo menor, Manoel diz que não faltam pessoas tentando mudar a posição dele. “Tem gente que não entende, tenta forçar o argumento de um lado e de outro, principalmente na internet”.

BINÁRIO

O publicitário Alexandre Boechat, autodeclarado #isentao sofre o mesmo. “Eu já quase sai do grupo do Whatsapp da escola da minha filha porque até ali querem discutir política”, afirma.

“Ao contrário do que possa parecer, é mais difícil não tomar nenhum lado. A gente precisa apurar uma posição e a outra, equilibrar os argumentos, chega a ser exaustivo.

E as pessoas exigem que você seja binário”, desabafa.

Para Alexandre, o uso recente da hashtag acaba aproximando quem pensa parecido, e é uma porta de entrada para discussões menos inflamadas.

“Eu sinto que os #isentoes estão se reunindo sem querer, estão começando a se comunicar. Na internet, inevitavelmente essas afinidades vão ficando mais claras, e permitem outro tipo de discussão, mais razoável”.

Manoel Alves Neto diz que o Brasil daria três temporadas de House of Cards

Uma reação comum desse “grupo” é a de evitar o que consideram “maluquices”, de um lado e de outro.

“Parei de seguir amigos, bloqueei gente, só tem maluco.

Quem tem essa posição mais isenta, que não consegue defender um processo de impeachment liderado pelo Cunha, ou as corrupções do governo, leva pancada nas redes”, afirma Boechat.

Para Manoel, a polarização não dá espaço para quem pensa diferente.

“O pessoal tá querendo fazer essa guerra de partidos, eu não: quero o fim da impunidade, da corrupção, não vou entrar em discussão de gente alterada, sou #isentao”, afirmou.

O pesquisador Pedro Lapera, que usa o apelido de “isentona mesmo” no Twitter, diz que tudo começou como uma “brincadeira”.

“É uma resposta à provocação de alguns ansiosos por um posicionamento ao lado do governo ou dos protestos que pedem o impeachment. Não considero um ‘movimento’, no máximo uma resposta desarticulada ao panorama político atual.

Mantive o nickname para que os me segue saibam que encontrará críticas ao governo e à oposição, sem concessões”, afirmou.

Para o sociólogo Antonio Lavareda, a crítica política contra aqueles que se posicionam de forma isenta ou moderada é explicada em parte por causa do cenário político que pede uma “solução”.

“A moderação não produz soluções em situações assim, e por ser considerada improdutiva, termina desagradando a todos os contingentes. Na moderação não há virtude resolutiva”, afirma.

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Fonte: Folha de S. Paulo