Para economistas e analistas, equilibrar contas, retomar confiança e realizar reformas estruturais e institucionais estão entre os principais desafios do novo governo.
Especialistas avaliam que a mudança traz uma melhora nas expectativas e que a nova equipe econômica deverá ter mais chance de sucesso na aprovação de medidas junto ao Congresso, mas destacam que qualquer recuperação na economia dificilmente ocorrerá antes de 2017.Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp
O governo deve incorrer em 2 grandes erros econômicos”
“Esse governo interino que ascende ao poder por meio de um processo questionável deve incorrer em dois grandes erros econômicos: 1º) dar continuidade à política de austeridade que tem contribuído para deprimir a economia brasileira e que se mostra contraproducente quanto ao seu objetivo de reduzir a divida pública e 2º) impor à sociedade reformas estruturais que não passariam pelo crivo das urnas, o que tornará ainda mais impopular, antidemocrático e ilegítimo”.

José Roberto Afonso, economista e pesquisador do Ibre/FGV
O desafio é monumental”
“O novo governo Temer receberá a mais pesada herança maldita da história macroeconômica do Brasil e talvez da maioria dos outros países. Se o desafio é monumental, ao menos tem uma oportunidade única e ímpar de ter apoio parlamentar para realizar profundas reformas institucionais que reponha o país no trilho do crescimento que, realisticamente falando, só virá no médio e longo prazo.

Não faltam soluções técnicas à disposição do novo governo, ainda que sejam complexas e difíceis. Espero que não falte vontade política.

Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda do governo José Sarney
Há um excesso de otimismo”
“O ambiente vai melhorar, a confiança tende a se recuperar e a economia pode se reanimar. Há, todavia, um excesso de otimismo sobre as possibilidades do governo Temer.

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As reformas que se espera são muito mais complexas e difíceis do que se imagina. Todas exigem mudanças na Constituição, robusto capital político e capacidade de enfrentar os poderosos grupos de interesse que se oporão às mudanças”.

“Temer tem um campo enorme para avançar, desde que concentre seus esforços em medidas que não exigem reforma constitucional. Pode anunciar um agressivo plano de privatização da infraestrutura, de eliminação da equivocada regra de conteúdo nacional e de abertura da economia.

Pode lutar por mudança do marco regulatório do pré-sal, retornando ao regime de concessão. Pode melhorar a situação da Previdência com leis ordinárias.

Se, todavia, buscar atender as expectativas irrealistas que se formam em torno de seu governo, corre o risco de congestionar a pauta legislativa e atolar-se em discussões intermináveis sobre reformas constitucionais. Estas mais se adequam a um presidente eleito com base em plataforma que as inclua do que a um governo de transição”.

Gesner Oliveira, sócio da consultoria GO Associados e ex-presidente do Cade
Espera-se uma melhora nas expectativas”
“Com o novo governo, espera-se uma melhora nas expectativas na medida em que se perceba que há um programa minimamente consistente de ajuste e com suficiente apoio político para a aprovação das medidas necessárias para: ajustar as contas públicas, estimular as parcerias e concessões para aumentar os investimentos em infra estrutura e promover as exportações e o setor externo mediante uma política proativa de comércio exterior. Se tal política for implementada, a economia poderá se recuperar a partir de 2017 o que acabará repercutindo positivamente sobre o emprego a partir de 2018.

Alex Agostini, presidente da agência de classificação de risco Austin Rating
Creio que o BC decidirá pela redução da Selic”
“Temer já iniciou seus trabalhos no sentido de colocar nomes fortes nas áreas mais sensíveis e estratégicas do governo, como é o caso de Henrique Meirelles na Fazenda, e o provável Ilan Goldfajn no Banco Central. A expectativa é que Meirelles tenha mais sucesso na aprovação de medidas junto ao Congresso, o que faltou a Levy e Barbosa.

Também creio que, entre junho ou julho, o novo BC decidirá pela redução da Selic, que pode chegar ao redor de 12% até o final deste ano. Porém, não vejo condições do novo governo de adotar medidas de estímulo econômico sem antes implementar quaisquer medidas de ajuste fiscal, até porque seus efeitos serão neutralizados pela atual descrença na economia por parte dos agentes econômicos.

Nesse sentido, não haverá tempo para reverter o resultado de um PIB com queda de quase 4% neste ano. Mas, ao menos, abre-se grande expectativa para 2017″.

Plinio Soares de Arruda Sampaio Júnior, do Instituto de Economia da Unicamp e candidato à presidência em 2010
A crise vai se aprofundar ainda mais”
“A sabedoria convencional convenceu a opinião pública de que com a saída da Dilma as coisas melhoram. É uma visão superficial e enganosa sobre a gravidade da crise brasileira.

A crise brasileira é complexamente determinada pelo impacto da crise internacional no Brasil, agravado pelo desastroso ajuste fiscal feito pelo ministro Joaquim Levy. A crise vai se aprofundar ainda mais.

A decisão de dobrar as metas do ajuste fiscal, que é o que está sendo anunciada pelo Henrique Meirelles, que provavelmente será o ministro da Fazenda, só vai agravar os problemas. Ajuste fiscal não resolve crises como a brasileira.

O caso da Grécia está aí para mostrar o que vai acontecer com o Brasil.”Alessandra Ribeiro, economista e sócia da Tendências Consultoria
Governo precisará agir rápido”
“A despeito dos enormes desafios nos campos político e econômico que serão enfrentados, a expectativa é de que o restabelecimento da governabilidade e o consequente encaminhamento de pontos-chave da agenda econômica resultarão em recuperação gradual da economia a partir do próximo ano.

Neste contexto, a manutenção da confiança dos agentes econômicos é fundamental. Além de nomes com credibilidade na nova equipe, o governo precisará agir rápido no encaminhamento de medidas para controlar o déficit fiscal e em medidas para reativar a atividade econômica.

A expectativa da Tendências é de que, após a retração de 4% neste ano, a economia cresça 1,2% em 2017 e 2,0% em 2018”.