Em um universo paralelo no qual “Pokémon Go” nunca existiu, “No man’s sky” era o game mais aguardado de 2016 até ser lançado no último dia 9. Aqui nesta dimensão, o jogo também recebeu enorme atenção do público desde seu anúncio em 2013, com as expectativas atingindo proporções estratosféricas a cada novidade.
Pode parecer estranho, mas isso acontecia mesmo antes que alguém soubesse exatamente quais seriam os objetivos deste explorador espacial com tons de sobrevivência que prometia quintilhões de planetas diferentes gerados por algoritmos.

Pois bem, após atrasos, muita ansiedade, ameaças, revolta e alguns problemas, o game finalmente está disponível para Playstation 4 e PCs — e, após mais de 20 horas explorando seu vasto universo, ainda não faço ideia do que deveria estar fazendo por lá. Assista ao vídeo acima.

Em “No man’s sky”, o jogador explora toda uma galáxia em primeira pessoa. Para isso, deve minerar recursos diferentes para abastecer sua nave, sua roupa de sobrevivência e até sua arma, que serve de defesa contra ameaças e como ferramenta de garimpo.

Sentinelas protegem os mundos (Foto: Reprodução/No man’s sky)
Depois de consertar sua nave nos momentos iniciais do game, o viajante goza de total liberdade para decidir o que fazer. É possível buscar todas as formas de vida de um planeta para ganhar unidades (a unidade monetária do jogo) extras, desenvolver novas tecnologias para aumentar suas chances de sobrevivência, ou simplesmente voar por novos sistemas solares sem rumo definido.

Não há uma linha narrativa clara a ser seguida. Por mais que os alienígenas e artefatos encontrados deem pistas de que há um plano maior, as barreiras de idioma nunca permitem sua total compreensão.

É possível aumentar seu conhecimento das línguas das grandes civilizações que parecem ter se espalhado pela galáxia — e, no começo, isso até parece um desafio interessante –, mas logo a tarefa se resume a uma pergunta: por que?
Por que eu estou andando de um lado para o outro em um ritmo extremamente lento em busca de minerais? Por que eu devo abastecer minha nave? Por que registro cada ser vivo que encontro? Por que algo ou alguém me dá créditos a cada nova forma de vida registrada? Acima de tudo, por que esperavam tanto deste jogo, desenvolvido por um pequeno estúdio sem grandes produções anteriores?Os planetas até parecem diferentes, mas repetem elementos (Foto: Reprodução/No man’s sky)Muitos zerosTalvez seja aquela promessa dos quintilhões (uma unidade seguida por 18 zeros) de planetas diferentes. Por um tempo, viajar por eles até parece valer a pena.

Há aqueles com baixas temperaturas, os radiativos, os com atmosferas tóxicas, os desertos, os cobertos por água.
No entanto, como tudo no jogo, logo é possível perceber que, por baixo de uma coloração diferente e algumas características maiores que à distância parecem distintas, todos são mais ou menos a mesma coisa, com variações que nem de longe dão a impressão de locais alienígenas.

Pior, eles compartilham número suficiente de semelhanças para tornar sua exploração cada vez mais repetitiva. Não basta ter que buscar plutônio em todos os lugares para abastecer sua nave, os cristais que contém o elemento são exatamente iguais, não importa em qual extremo da galáxia você esteja.

Confesso que sentia receio de publicar uma análise sem chegar ao centro da galáxia ou avançar ainda mais na busca pelo Atlas — os dois caminhos mais claros no mapa de exploração entre sistemas –, seja lá o que for isso.Procurar pelo Atlas é uma das poucas trilhas oferecidas pelo game (Foto: Reprodução/No man’s sky)O que fazer?Talvez haja algo escondido que compense toda a repetição de tarefas, ambientes e criaturas.

Talvez um reviravolta na história revele que o jogo merecia toda aquela expectativa que rendeu até ameaças de morte ao criador Sean Murray após anúncios de atrasos no lançamento.
No entanto, após dezenas de horas de jogo no qual me dediquei a todas as possibilidades oferecidas por “No man’s sky”, finalmente percebi que, se o próprio game não oferece motivos para continuar, eu também não era obrigado a insistir.

Oferecer tanta liberdade para o jogador parece ser uma das questões de honra do jogo da Hello Games, mas serve apenas como tentativa de mascarar uma falta de foco que beira o vazio. É possível que a desenvolvedora tenha se deixado levar pelo próprio hype, que prejudica até uma avaliação mais isenta, mas o game se beneficiaria de um pouco mais de atenção aos detalhes.

Depois de 20 horas de jogo, 27 planetas visitados, 13 sistemas solares e cinco naves diferentes, até curti toda a independência oferecida, mas a repetição e a falta do que fazer me trazem à mente as sábias palavras de Alexandre Pires: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?” — e, tenho que dizer, parar de jogar “Overwatch” para me dedicar a “No man’s sky” foi o mais perto que cheguei do verso “troquei quem mais amava por uma ilusão”.
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Fonte: G1 Tecnologia